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Setembro Amarelo: cuidar de pessoas também é responsabilidade da cultura

há 7 dias
4 min de leitura

Setembro Amarelo nos convida a falar sobre prevenção ao suicídio, mas, dentro das organizações, o convite mais importante pode ser o de olhar para as pessoas antes que o sofrimento se aprofunde e possa colocar a vida em risco.

Em um ambiente corporativo, falar sobre saúde mental não significa transformar a empresa em espaço terapêutico, tampouco atribuir à organização a responsabilidade por todas as questões pessoais de seus colaboradores.


Significa reconhecer que o trabalho também faz parte da vida das pessoas — e que a forma como lideramos, nos relacionamos, cobramos resultados, comunicamos decisões e enfrentamos conflitos pode contribuir para um ambiente mais saudável ou, ao contrário, ampliar situações de sofrimento.


Por isso, saúde mental precisa deixar de ser apenas um tema de campanha e passar a fazer parte da cultura, da liderança e da gestão de pessoas.


Precisamos aprender a perceber mudanças de comportamento pois nem sempre quem está sofrendo consegue pedir ajuda.


Algumas mudanças de comportamento podem merecer atenção, principalmente quando são significativas e persistentes:

  • isolamento ou afastamento dos colegas;

  • mudanças bruscas de humor ou comportamento;

  • queda repentina de desempenho ou concentração;

  • faltas e atrasos recorrentes;

  • irritabilidade, apatia ou desânimo incomuns;

  • perda de interesse por atividades que antes faziam sentido;

  • manifestações de desesperança, inutilidade ou falta de perspectiva;

  • dificuldade maior para lidar com situações cotidianas;

  • alterações perceptíveis de energia, sono ou disposição.


É importante lembrar que um sinal isolado não significa necessariamente que exista um problema de saúde mental e que observar não é diagnosticar. O importante é preparar a liderança para reconhecer os sinais e acionar os recursos adequados de apoio.


O papel das empresas: entre a responsabilidade e o limite de atuação


A empresa não substitui o profissional de saúde e não deve tentar diagnosticar ou tratar seus colaboradores.

Sua responsabilidade está em promover condições de trabalho saudáveis, prevenir riscos, combater situações de violência e assédio, capacitar suas lideranças, disponibilizar canais de apoio e facilitar o acesso à ajuda adequada quando necessário.


A legislação brasileira vem fortalecendo essa perspectiva. A Lei nº 14.831/2024 criou o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental e estabelece diretrizes relacionadas à promoção da saúde mental, acesso a recursos de apoio psicológico e psiquiátrico, conscientização, capacitação de lideranças e combate à discriminação e ao assédio.


A nova redação da NR-1 que entrou em vigor em 26 de maio de 2026, também merece atenção. A atualização passou a contemplar expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.

Na prática, isso amplia uma reflexão importante para as organizações:


Não basta cuidar do indivíduo sem olhar para o ambiente no qual ele está inserido.


Sobrecarga, pressão excessiva, relações abusivas, assédio, falta de autonomia, conflitos não tratados, comunicação inadequada e outras condições relacionadas à organização do trabalho também precisam ser observadas.


Quando existe uma suspeita, como se aproximar?

Talvez um dos maiores desafios esteja justamente aqui: Como perguntar sem invadir? Como acolher sem assumir o papel de terapeuta?


A resposta começa pela simplicidade.

Uma liderança pode chamar a pessoa para uma conversa reservada e dizer:

“Tenho percebido algumas mudanças em você e gostaria de saber como está. Existe alguma forma de a empresa ou eu podermos apoiar você?”

Não é preciso ter todas as respostas.

É preciso escutar sem julgamento, demonstrar respeito e orientar para os recursos adequados de apoio.


A empresa pode contar com RH, Saúde Ocupacional, médico do trabalho, psicólogos, programas de assistência ao empregado e outros recursos disponíveis, conforme sua estrutura.

Quando houver indicação de risco imediato, a prioridade deve ser a segurança da pessoa e o acionamento dos serviços de saúde e emergência apropriados.


Acolher não é tratar. Acolher é não ignorar.


A prevenção não precisa acontecer apenas em setembro, algumas iniciativas podem fazer parte de uma estratégia permanente:


1. Preparar as lideranças

Capacitar gestores para reconhecer mudanças comportamentais, conduzir conversas sensíveis, acolher e encaminhar adequadamente.


2. Criar espaços de diálogo

Promover conversas sobre saúde mental, relações, equilíbrio, emoções e desafios do trabalho, sem transformar o tema em tabu.


3. Fortalecer os canais de apoio

Comunicar de maneira clara onde e como o colaborador pode buscar ajuda.


4. Olhar para os riscos psicossociais

Avaliar como a organização do trabalho, as demandas, as relações, a liderança e o ambiente podem estar impactando as pessoas.


5. Combater o assédio e a violência

Uma cultura saudável não pode coexistir com comportamentos abusivos naturalizados.


6. Desenvolver uma liderança mais humana e consciente

Liderar pessoas exige resultado, mas também exige percepção, responsabilidade e capacidade de construir relações de confiança.


7. Transformar o Setembro Amarelo em compromisso contínuo

Uma campanha pode abrir uma conversa mas é a cultura que sustenta essa conversa ao longo do ano.


Cuidar de pessoas não significa eliminar todas as dificuldades, significa construir uma cultura na qual o sofrimento não precise ser escondido para que alguém seja considerado forte, produtivo ou competente. E talvez seja justamente aí que a liderança tenha um papel essencial.

Porque, antes de serem profissionais, são pessoas. E cuidar de pessoas também é cuidar da cultura que construímos todos os dias.


Para as organizações vale refletir que talvez a pergunta mais importante não seja apenas: Como estão nossos colaboradores, mas também: Que ambiente estamos construindo para que as pessoas possam trabalhar, se relacionar, errar, aprender, pedir ajuda e continuar pertencendo?


Desenvolver pessoas é também criar ambientes onde elas possam se sentir respeitadas, acolhidas e seguras para serem quem são.


Que o Setembro Amarelo não seja apenas um mês de conscientização, mas um convite para construirmos, juntos, relações de trabalho mais humanas, saudáveis e responsáveis.

 
 
 

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